{"id":4917,"date":"2023-02-13T10:39:26","date_gmt":"2023-02-13T13:39:26","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdoraimundinhovitor.com.br\/?p=4917"},"modified":"2023-02-13T10:44:58","modified_gmt":"2023-02-13T13:44:58","slug":"por-tras-do-abaporu-quem-foi-tarsila-do-amaral-a-pintora-de-vida-sofrida-e-coracao-generoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoraimundinhovitor.com.br\/index.php\/2023\/02\/13\/por-tras-do-abaporu-quem-foi-tarsila-do-amaral-a-pintora-de-vida-sofrida-e-coracao-generoso\/","title":{"rendered":"Por tr\u00e1s do Abaporu: quem foi Tarsila do Amaral, a pintora de vida sofrida e cora\u00e7\u00e3o generoso"},"content":{"rendered":"\n<p>Muito al\u00e9m da postura nobre, do batom marcado e do vermelh\u00edssimo Jean Patou, existe uma&nbsp;<strong>Tarsila do Amaral<\/strong>&nbsp;(1886-1973) sobrevivente no autorretrato de 1923. N\u00e3o foi uma vida f\u00e1cil. \u201cDiria que a hist\u00f3ria dela \u00e9 quase o oposto ao que pintou. Porque os quadros da Tarsila mais conhecidos, aqueles corriqueiros, s\u00e3o telas com cores muito ing\u00eanuas, frescas, alegres. A impress\u00e3o que se tem \u00e9 que estamos num reino encantado. E foi tudo ao contr\u00e1rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem fala \u00e9 a historiadora&nbsp;<strong>Mary Del Priore<\/strong>, h\u00e1 anos envolta na sucess\u00e3o de equ\u00edvocos que foi a trajet\u00f3ria da pintora \u2013 protagonista de \u201cTarsila: Uma vida doce-amarga\u201d, biografia publicada no ano passado pela editora Jos\u00e9 Olympio. O livro ilumina a jornada de um dos nomes mais importantes das Artes Pl\u00e1sticas brasileiras por meio de fatos ainda encobertos, frutos de uma vida \u00edntima pouqu\u00edssimo conhecida, tragada pelo&nbsp;<strong>sofrimento<\/strong>&nbsp;e pela&nbsp;<strong>abnega\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A criadora do \u201cAbaporu\u201d frustrou-se com quatro maridos, perdeu a filha para uma doen\u00e7a e a neta para um acidente. Foi abandonada por amores, acumulou poucos amigos e, desprezada pela cr\u00edtica da \u00e9poca, terminou a carreira&nbsp;<strong>vendendo quadros sob encomenda<\/strong>. Ainda assim, conservava o sorriso generoso e a tez mansa. Voz doce e presen\u00e7a suave.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEla \u00e9 o exemplo vivo daquilo que chamo de anti-dolorismo. Em momento nenhum sente pena dela mesma. Sofre o p\u00e3o que Asmodeus amassou, mas \u2013 escorada nos valores que hoje mudaram completamente, valores de \u00e9poca \u2013 sempre se levanta. Usa todas as caracter\u00edsticas que se esperava de uma mulher daquele tempo para continuar sobrevivendo\u201d.MARY DEL PRIOREHistoriadora e escritora<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que tantos infort\u00fanios? Vamos aos fatos. Nascida em&nbsp;<strong>Capivari<\/strong>, interior de S\u00e3o Paulo, Tarsila cresceu em uma fam\u00edlia considerada um dos velhos e bons cl\u00e3s da classe m\u00e9dia alta paulista. Pouco se conhece, contudo, dos primeiros anos de menina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe-se que teve seis irm\u00e3os na fazenda. E que o pai, embora n\u00e3o fosse milion\u00e1rio \u2013 era um agricultor mediano com uma pequena fazenda, mas constitu\u00eddo de tradi\u00e7\u00e3o \u2013 perdeu tudo no&nbsp;<strong>crash da bolsa de Nova York<\/strong>, em 1929. Talvez, a partir da\u00ed, o caminho da pintora comece a se lan\u00e7ar no abismo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/image\/contentid\/policy:7.4767016:1676291077\/Tarsila-do-Amaral.jpg?f=default&amp;$p$f=6b57601\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Legenda:<\/strong>&nbsp;Tarsila nos anos 1920<strong>Foto:<\/strong>&nbsp;Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Del Priore narra a vida de Tarsila, dona de uma personalidade complexa e intrigante, com riqueza de escrita confessional e apurada de uma historiadora dedicada a estudar o universo feminino. Tarsila experimentou&nbsp;<strong>a riqueza e a pobreza, a liberdade e a pris\u00e3o<\/strong>. E os marcos da vida da artista revelam os contextos de um Brasil preconceituoso e machista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">INTENSA E EM DECL\u00cdNIO<\/h2>\n\n\n\n<p>A separa\u00e7\u00e3o do primeiro casamento aconteceu quando&nbsp;<strong>o C\u00f3digo Civil espelhava o patriarcado<\/strong>, como descreve Del Priore no livro: \u201cS\u00f3 dava tr\u00eas op\u00e7\u00f5es \u00e0 mulher separada ou desquitada: voltar para a casa dos pais, onde seria criticada pelo fracasso do casamento; entrar para a prostitui\u00e7\u00e3o, se fosse pobre e sem preparo profissional; unir-se ao homem que viesse a amar, sabendo que teria o rep\u00fadio da sociedade \u2018por n\u00e3o ser casada\u2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A arte levou Tarsila a conhecer os artistas que ampliaram seus horizontes, a levaram para diferentes lugares do mundo e a experimentar diferentes maneiras de expressar a vida.&nbsp; Uma vida intensa, mas em permanente decl\u00ednio. \u201cA pintura dela s\u00f3 \u00e9 reconhecida a partir de 1963, ou seja, h\u00e1 d\u00e9cadas no mais absoluto limbo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quem imaginou que a mulher que abusou das cores e das formas, inspirou filmes e cole\u00e7\u00f5es de moda, cujos quadros valem milh\u00f5es no mercado de arte, chegou a ser pintora de parede em constru\u00e7\u00f5es no avan\u00e7ar da vida? \u201cAt\u00e9 que ela toma um tombo, faz uma opera\u00e7\u00e3o na coluna e fica entrevada. A Tarsila termina a vida em cima de uma cama, numa&nbsp;<strong>cadeira de rodas<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/image\/contentid\/policy:7.4767017:1676291134\/Tarsila-do-Amaral-3.jpg?f=default&amp;$p$f=e3ff552\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Legenda:<\/strong>&nbsp;Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade: casamento complicado<strong>Foto:<\/strong>&nbsp;Fundo Oswald de Andrade\/Centro de Documenta\u00e7\u00e3o Cultural Alexandre Eul\u00e1lio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, essa importante personagem que recebeu insultos e sofreu intoler\u00e2ncia foi, como revela Del Priore, \u201cv\u00edtima de seu tempo\u201d. Mesmo diante de tudo, cultivava a serenidade, \u201cmantinha a capacidade de ficar de cabe\u00e7a erguida\u201d.&nbsp;<strong>For\u00e7a vinda da f\u00e9 religiosa<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEssa f\u00e9 a constitui, que lhe d\u00e1 identidade social \u2013 lembro que ela sempre estudou em col\u00e9gio de freira, logo pinta muito crucifixo, santo, ou seja, toda a forma\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica da Tarsila \u00e9&nbsp;<strong>muito acad\u00eamica<\/strong>, com muita influ\u00eancia desse ambiente religioso. E ela termina a vida vivendo exatamente aquele modelo de mulher\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mulher que se pintou gloriosa, que morreu vivendo o que acreditava e segue inspirando gera\u00e7\u00f5es. Inclusive a pr\u00f3pria Mary, que estudou no mesmo col\u00e9gio de Tarsila \u2013 o&nbsp;<strong>Nossa Senhora de Sion<\/strong>, tradicional institui\u00e7\u00e3o de ensino localizada no bairro de Higien\u00f3polis, regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo \u2013 e se diz sintonizada com a artista em alguns aspectos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sublinhando que a biografia foi toda constru\u00edda por meio de informa\u00e7\u00f5es encontradas em jornais \u2013 uma vez que os amigos pr\u00f3ximos de Amaral j\u00e1 estavam mortos \u2013 Mary Del Priore retoma a medita\u00e7\u00e3o sobre o tempo para&nbsp;<strong>situar Tarsila na Hist\u00f3ria<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTarsila definitivamente n\u00e3o \u00e9 uma feminista, uma mulher \u00e0 frente de seu tempo. Ao contr\u00e1rio: acho que&nbsp;<strong>o tempo da Tarsila mastiga at\u00e9 os ossos<\/strong>&nbsp;essa pobre mulher, e acaba cuspindo ela. S\u00f3 depois que ela vai ser realmente, digamos, descoberta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">PARA VER TARSILA<\/h2>\n\n\n\n<p>Nestes&nbsp;<strong>101 anos da Semana de Arte Moderna<\/strong>, completos nesta segunda-feira (13) \u2013 quando iniciava o evento que pautou in\u00fameras discuss\u00f5es e at\u00e9 hoje inspira projetos e trabalhos \u2013 cabe saber tamb\u00e9m onde est\u00e3o os quadros de Tarsila, aprimorando as premissas apresentadas na biografia de Del Priore.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<strong>\u201cAbaporu\u201d<\/strong>&nbsp;(1928), por exemplo, um dos quadros mais famosos da artista, n\u00e3o est\u00e1 em solo brasileiro, mas no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/image\/contentid\/policy:7.4767020:1676291304\/Tarsila-do-Amaral-5.jpg?f=default&amp;$p$f=057b71c\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Legenda:<\/strong>&nbsp;O Grupo Mirante de Teatro Unifor frequentemente entra em cartaz com a pe\u00e7a de mesmo nome da pintora<strong>Foto:<\/strong>&nbsp;Ares Soares<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A tela&nbsp;<strong>\u201cO Pescador\u201d<\/strong>&nbsp;(1925), por sua vez, est\u00e1 exposta no Hermitage Museum, de S\u00e3o Petersburgo. O quadro aborda um tema excepcionalmente brasileiro: um pescador, sentado em uma pedra em um lago, em meio a uma pequena vila com casinhas e vegeta\u00e7\u00e3o t\u00edpica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Di\u00e1rio do Nordeste <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito al\u00e9m da postura nobre, do batom marcado e do vermelh\u00edssimo Jean Patou, existe uma&nbsp;Tarsila do Amaral&nbsp;(1886-1973) sobrevivente no autorretrato de 1923. N\u00e3o foi uma vida f\u00e1cil. \u201cDiria que a hist\u00f3ria dela \u00e9 quase o oposto ao que pintou. 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